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A Vacina e o sistema imune na COVID-19 | Colunistas SanarMed

Antes de entender como uma vacina funciona, é preciso compreender as duas respostas imunes do nosso organismo. Nós temos 2 tipos de imunidade: a imunidade inata e a imunidade adquirida. A diferença entre elas é no grau de especificidade, sendo a imunidade inata menos específica que a imunidade adquirida. De zero a 12 horas, temos a imunidade inata agindo no nosso organismo a qualquer tipo de antígeno. Ela reconhece tudo o que não é próprio e que podem ser microrganismos ou não. São elas: as barreiras epiteliais, os fagócitos, o sistema complemento e as células NK.  Várias exposições repetidas ao mesmo antígeno geram uma outra resposta imune, dessa vez, por parte da imunidade adquirida. A imunidade adquirida é composta de linfócitos T, linfócitos B e anticorpos. Precisamos da resposta da imunidade inata para ativar a adquirida e vice versa. Portanto, há um intercambio entre as duas e uma falha em uma ou outra pode comprometer a imunidade como um todo. As vacinas ativam a produção dos chamados anticorpos neutralizantes e dependem dos dois tipos de imunidade. É como uma orquestra trabalhando em sintonia.

Imunologia Celular E Molecular. Rio de Janeiro: Elsevier.

Existe uma necessidade de várias vacinas para a COVID-19 e, mesmo com a vacina, as curvas ascendentes podem, por um bom tempo, ainda assim favorecer outros picos da doença. Precisamos de pelo menos 70% das pessoas imunizadas para haver a tão falada imunidade de rebanho e que a transmissão se desacelere a ponto dos não imunizados estarem protegidos da doença. Não se pode optar por essa imunidade de rebanho de maneira natural, contraindo-se o vírus, pois a mortandade seria altíssima.

Para ser eficaz, uma vacina deve desencadear uma longa memória. Outra questão importante é a disponibilidade da produção ser feita no Brasil. O ideal seria uma vacina brasileira para que qualquer mutação do vírus pudesse ser de fácil atualização do produto nas próprias instituições locais, sem haver a necessidade de qualquer tipo de correção da vacina em países estrangeiros no caso de uma mutação viral.

Na produção das atuais vacinas, o mundo já tinha conhecimento de outros corona vírus como a MERS e SARS-Cov-1. A partir deles é que foi possível desenvolvimento mais rápido das vacinas que hoje se encontram disponíveis no mercado. As muitas vacinas da COVID foram apenas uma continuidade do que já existia em termos de pesquisa desde os anos 2000.

Para a vacina ser capaz de proteger contra uma doença, é necessário que ela induza a produção de anticorpos neutralizantes, mas são muitas as questões a serem levadas em consideração. A eliminação de antígenos mediada por anticorpos envolve diversos mecanismos efetores e requer a participação de vários componentes celulares e humorais do sistema imune. No que diz respeito a segurança, as vacinas que já vêm sendo usadas não induzem à doença nem a nenhum tipo de toxidade.

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O SARS-Cov-2 penetra na célula do hospedeiro a partir da proteína SPIKE que se liga a receptores ECA 2. Uma vez que a partícula viral esteja dentro da célula, o RNA, que tem a informação genética do vírus,  será liberado e irá utilizar toda a maquinaria da célula para produzir as proteínas que são necessárias à fisiologia do vírus, que lesará a célula e entrará na circulação buscando por mais células para infectar. A proteína SPIKE tem domínios nos quais as vacinas atuais produzem anticorpos neutralizantes, impedindo com isso a ligação do vírus na célula e toda a replicação viral.

Sem a vacina, são as células dendríticas que realizam fagocitose e apresentam pequenos fragmentos desse vírus ao sistema imune. Posteriormente, as células TCD4 apresentam aos linfócitos B que se multiplicam, diferenciam e produzem anticorpos. Essas mesmas células auxiliadoras vão ajudar os linfócitos TCD8, ou citotóxicos, a destruir células que estão infectadas com o SARS=Cov-2. São mecanismos humorais e celulares que impedem a evolução da doença. A vacina é uma maneira eficaz e segura de apresentar o inimigo sem que com isso o organismo fique doente, gerando células T e B de longa duração.

A grande parte das vacinas disponíveis são baseadas na proteína spike inteira, partes dela ou apenas a sua informação genética. Das principais que temos disponíveis podemos ressaltar a CORONAVAC, que é de vírus inativado. Entretanto, na China, também existem vacinas de vírus atenuado. Outras disponíveis são as de vetores virais que não são o SARS-Cov-2 (como, por exemplo, o vírus do sarampo) e que levam a sua informação genética em seu capsídeo a fim de estimular uma resposta imune. Esse é o caso da vacina de Oxford. Temos, por último, as vacinas de RNA e DNA que levam a informação genética para a produção de proteína viral para gerar uma resposta imune, além das vacinas baseadas em proteínas.


A pesquisa e o desenvolvimento de uma vacina têm várias etapas como a identificação do antígeno a ser utilizado, a produção, teste em animais, prova de conceito, fases 1, 2 e 3, aprovação e registro.

A importância da imunidade humoral é que, além da neutralização, os anticorpos podem opsonizar partículas virais e promover a sua depuração por fagócitos. A ativação do complemento também pode participar da imunidade viral mediada por anticorpos. A vacinação protege as pessoas contra uma infecção viral não estabelecida, mas não tem efeito curativo de pessoas já infectadas. Vírus que já residem dentro de células são eliminados por CTL que matam a célula.

A eliminação de uma doença infecciosa por meio da vacinação depende de vários fatores relacionados às propriedades do microrganismo. O agente infeccioso não pode estabelecer latência ou nenhuma variação antigênica, como no caso do HIV. A maioria das vacinas em uso trabalha com a indução da imunidade humoral.

Quando se fala em eficácia de vacina é referente a promover a produção de plasmócitos de longa vida que produzem anticorpos de alta afinidade e células B de memória para que, quando o indivíduo tiver contato com o vírus, ele possa rapidamente liberar anticorpos e bloquear a sua atuação. É bastante delicado falar que uma vacina é melhor que outra uma vez que, se tratando de tratamentos médicos, os resultados dependem não somente do produto, mas, também, por exemplo, de outras variáveis como a população a ser aplicada a vacina.

Por um bom tempo, a vacinação não eliminará os protocolos de segurança referentes a pandemia. A produção de anticorpos contra o SARS-Cov-2 e a tão sonhada imunidade de rebanho levará ainda um bom tempo para ser alcançada. A COVID-19 será uma realidade mundial durante muito tempo.

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FONTE Minha coluna no SanarMed https://www.sanarmed.com/a-vacina-e-o-sistema-imune-na-covid-19-colunistas

Bibliografia

Abbas, A., Lichtman, A., Pillai, S., Baker, D. and Baker, A., 2015. Imunologia Celular E Molecular. Rio de Janeiro: Elsevier.

Baldo V, Reno C, Cocchio S, Fantini MP. SARS-CoV-2/COVID-19 Vaccines: The Promises and the Challenges Ahead. Vaccines (Basel). 2021 Jan 4;9(1):E21. doi: 10.3390/vaccines9010021. PMID: 33406785.

Williams L, Flowers P, McLeod J, Young D, Rollins L, The Catalyst Project Team. Social Patterning and Stability of Intention to Accept a COVID-19 Vaccine in Scotland: Will Those Most at Risk Accept a Vaccine? Vaccines (Basel). 2021 Jan 4;9(1):E17. doi: 10.3390/vaccines9010017. PMID: 33406762

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Sobre Mim

Estudante de Medicina, YouTuber, Blogueira, Colunista SanarMed, Academia Médica e Framework