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Estudantes que não lutam por seus direitos, não organizam as relações de poder na sociedade

“A lei não nasce da natureza, junto das fontes frequentadas pelos primeiros pastores: a lei nasce das batalhas reais, das vitórias, dos massacres, das conquistas que têm sua data e seus heróis de horror: a lei nasce das cidades incendiadas, das terras devastadas; ela nasce com os famosos inocentes que agonizam no dia que está amanhecendo”.

FOUCAULT. M. Aula de 14 de janeiro de 1976. In. Em defesa da
sociedade. São Paulo: Martins Fontes. 1999

Somos um país de gente covarde. Gente que não quer, de forma alguma, sair da zona de conforto. Foi exatamente isso que pude observar nos meses de brigas judiciais contra a minha faculdade. Em um dia do estágio, uma das minhas colegas, chorava em pleno centro cirúrgico COM MEDO, PAVOR da faculdade. O namorado dela havia me contado que na noite anterior teve que ir para a sua casa acalmá-la. Chorou a noite toda com medo da faculdade. Dias antes a coordenadora de cirurgia havia nos acusados de ter faltado o estágio, sem provas alguma. Porque um dos preceptores não nos viu. Sendo que ESSE preceptor opera cabeça e pescoço e fica IMERSO durante a cirurgia.  Não distante, há alguns meses, um amigo enviou mensagens para mim “ela (a faculdade) vai me caçar, vai me caçar”. Meu amigo havia faltado um estágio sem atestado médico. E a faculdade, agora, resolveu impor que sem atestado faltar REPROVA.

Às vezes me foge o que escrever por aqui diante de tais comportamentos e situações. Faltar estágio no não está no código penal, tampouco se assemelha a uma notícia de poucos meses de vida em consequência de um câncer incurável. Ninguém será preso ou vai morrer. Porém, a sensação que a faculdade causa nos alunos é essa. E ela só consegue isso porque durante anos os pais ensinam seus filhos a “fugir da luta”. Não brigar, não fazer “barracos”, não se meter, permanecer em silêncio, “tirar o seu da reta”. Existem milhares de maneiras e desculpas que o brasileiro usa para não exercer a cidadania. Como se isso fosse protegê-lo de alguma maneira dos reveses da vida. E justamente é isso, toda essa covardia, que o faz pertencer a uma das nações mais injustas do mundo com um nível de desigualdade gigante. Crianças pedindo esmolas nos sinais de trânsito, corrupção. Nós só não somos covardes, como somos pessoas DESPREZÍVEIS.

Hoje eu soube que uma assistente social da faculdade supostamente ofendeu um bolsista. Fui atrás da identidade da tal bolsista para ver o que havia acontecido. Eu tenho essa energia por justiça dentro de mim. Não adiante “O PAPA” me aconselhar a ficar quieta. Não fico. A pessoa que havia me alertado da situação, FUGIU. Não quer se meter. Na hora me deu uma raiva. É mais uma pessoa covarde. “Mais do mesmo”. E ainda tentou me enganar dando desculpa “esfarrapada”. No Brasil, até para ajudar o outro, você tem que convencê-lo que apanhar do sistema NÃO É NORMAL. A maioria acha que deve “apanhar” calado. É como se todos vivessem em uma região comandada por milicianos e sem lei alguma. Um “terreno baldio” Ou pior, já ouvi várias vezes que a ex-diretora de Medicina “tinha poderes” junto à justiça brasileira. Tudo em torno da faculdade me lembra aqueles contos de folclore como a lenda do Saci Pererê misturado com o “você sabe com quem está falando?” e uma pitada de coronelismo. Os alunos confundem folclore e Brasil colonial com realidade e todos reagem como se habitassem um país à parte, o país da nove de julho em que TUDO pode acontecer e que o sistema sempre será favorável a essa instituição. E isso não é verdade. Eu ganhei na justiça contra a minha faculdade. Todas as vezes.

Outro dia, minha mãe me contou de um desses países perdidos no mundo em que não há uma sociedade organizada em instituições. Nele não havia nem uma fiscalização federal para os impostos. Tudo era elaborado em “feiras”. A pessoa ia na tal feira e pagava o imposto que ia para um determinado “rei”. As pessoas reagem como se na instituição de ensino houvesse um tal rei que ligasse para o presidente da república do Brasil que se comunicaria com os juízes de São Paulo para “decidir” a favor da faculdade. O que é totalmente IRREAL. Não existe isso. O que provavelmente acontece é que a maior parte dos advogados contratados pelos alunos não conseguiu defender seus clientes de maneira correta. E as ações que os alunos no passado protocolaram contra a faculdade não ficaram muito bem redigidas e eles acabaram perdendo. As ações que ganhei foram super bem escritas pelo meu amigo e fiel escudeiro, Dr. Otávio. Escudeiro somente não, RAMBO, faixa preta jurídico.

Hoje me dei conta que mais uma vez terei que lançar mão da justiça para a “recorreção” da minha prova. Aplicaram uma prova totalmente louca em mim no meio do ano, só para mim. E corrigiram dando errado às questões que eu coloquei a mesma resposta do gabarito. E já solicitei diversas vezes ao diretor a “recorreção”. É inconcebível estar às vésperas de provas finais pensando em futuras ações jurídicas. Porém essa é minha vida atual. A luta em me formar é uma batalha contra o lugar no qual estudo. Mas não é SÓ ISSO. A luta contra o lugar que estudo, é a maneira que encontrei de ser atuante como cidadã. Quando EXIJO meus direitos, eu pulo séculos no tempo. Não sou a brasileira do Brasil colônia dos coronéis. Sou a brasileira que caminhou 1000 anos à frente. Um Brasil que talvez um dia as instituições respeitem mais os direitos civis.

Estudantes que não lutam por seus direitos, não organizam as relações de poder na sociedade e vivem com pavor de cair em um abismo que eles mesmos não sabem que criaram.

A lei não nasce espontaneamente, junto das fontes frequentadas pelos primeiros pastores: a lei nasce das batalhas reais, das vitórias, dos massacres, das conquistas que têm sua data e seus heróis de horror: a lei nasce das salas de aula INCENDIADAS de ideias, ela nasce com aqueles que sabem dizer NÃO. O homem revoltado é aquele que sabe dizer NÃO!

REVOLTE-SE

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Sobre Mim

Estudante de Medicina, YouTuber, Blogueira, Colunista SanarMed, Academia Médica e Framework

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