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HIV dos anos 80 para o século XXI | Colunistas

Atualmente mais 35 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo e, nos últimos anos, essa infecção é considerada uma doença crônica de manejo ambulatorial, tratável pelo desenvolvimento da terapia antirretroviral. Houve aumento tanto da qualidade quanto da expectativa de vida dos portadores do vírus. No entanto, a epidemiologia do HIV continua concentrada em alguns grupos-chave; são eles a população HSH, trans, usuários de drogas injetáveis e os profissionais do sexo. Por ser uma patologia com um fator social muito importante na sua disseminação, independentemente do grupo ao qual se pertença – de risco ou não –, todos na sociedade têm um grau de vulnerabilidade para a infecção por HIV.

O HIV é um vírus da família dos retrovírus do gênero lentivírus. E eles são muitos. Temos o HIV tipo 1 e do tipo 2 e, do tipo 1, temos grupos e subtipos. A infecção por vírus não traz apenas uma doença, mas muitas. No Brasil a prevalência é do tipo 1, grupo M e subtipo B.

Goldman-Cecil Medicina, 386: Biologia dos vírus da imunodeficiência humana| Lee Goldman and Andrew I.Schafer  

Existe uma teoria de que o HIV veio do macaco sooty mangabey, que é infectado pelo vírus SIV sem, com isso, ficar doente, já que o vírus e hospedeiro estão adaptados um ao outro. Um dia, uma mutação permitiu que esse vírus contaminasse o chimpanzé e, posteriormente a essa contaminação, aconteceu o que é conhecido como “salto de espécies”, infectando os seres humanos, como acredita-se que ocorreu no caso do Sars-Cov-2. Supõe-se que houve manipulação da carne do chimpanzé por humanos, resultando na contaminação por meio de um acidente. Portanto, o vírus SIV do chimpanzé se torna o vírus HIV nos humanos. Para comprovar isso, temos semelhanças do material genético entre o HIV tipo 1 e tipo 2 e todos os seus grupos e subtipos, respectivamente, do SIV dos macacos sooty mangabey e chimpanzé.

Os primeiros casos em humanos de infecção por HIV apareceram há quase 100 anos, em uma vila perto da atual República Democrática do Congo. Algumas pessoas ficavam doentes, morriam e ninguém sabia do que estava acontecendo, em razão da falta de conexão da região com o restante dos lugares. Depois de quase 17 anos, o vírus chegou a outra vila, situada a 120 km de onde havia surgido; na década de 60, chegou ao Haiti através de pessoas que haviam estado na República do Congo a trabalho.

Nos EUA, o HIV surgiu na década de 70, mas somente em 1981 a síndrome foi reconhecida em pacientes HSH de um pronto-socorro em Los Angeles. Esses pacientes não tinham histórico de doenças prévias e apresentavam doenças que indicavam algum comprometimento da imunidade; dentre elas, a de maior prevalência foi a pneumonia por pneumocistose. Além disso, essas pessoas acabavam indo a óbito com o avançar da doença.

Somente após 2 anos o agente etiológico foi reconhecido pelo francês Luc Montagnier e sua equipe no Instituto Pasteur de Paris. Até então, ninguém sabia que era um vírus. Nos anos seguintes a patologia foi nomeada de AIDS/SIDA – síndrome da imunodeficiência humana adquirida. Em 1985 foi desenvolvido o primeiro teste aprovado pelo FDA que encontrava os anticorpos para o HIV. E apenas em 1987 foi aprovado o primeiro medicamento para tratar a AIDS, o AZT.

A partir do surgimento do AZT – naquele momento ineficiente, tóxico e que inevitavelmente o paciente ia a óbito –, muitos outros medicamentos começaram a surgir. Nos últimos 30 anos a terapia combinada com antirretrovirais, como os inibidores de protease, ainda com muita toxidade, fez com que as mortes por HIV diminuíssem, e uma nova era chega em 2009, com os inibidores de integrase apresentando menor toxidade. No Brasil o acesso aos antirretrovirais é garantido pela Constituição, com a terapia de associação de três drogas de duas classes diferentes. O que temos disponíveis são os inibidores da transcriptase reversa, inibidores da protease e os inibidores da integrase. Novos antirretrovirais foram aprovados, alguns mais modernos já disponíveis nos Estados Unidos, cujo objetivo é sempre garantir menor toxidade e aumento da potência do fármaco para evitar a resistência por parte do vírus ao tratamento, o que não era possível com a monoterapia, já que o vírus ganhava resistência e a AIDS surgia novamente.

O surgimento das novas terapias construiu uma nova história para quem é portador do vírus, que passa a não apresentar mais a AIDS, e a separação de quem tem a síndrome e de quem tem o vírus isso é muito importante. Foi observado que, em gestantes que viviam com o HIV e tomavam AZT em monoterapia, quando também se administrava o AZT em monoterapia ao bebê que acabava de nascer, conseguia-se diminuir consideravelmente a chance da transmissão vertical da mãe infectada para o filho. Hoje a chance de transmissão é zero e portadoras do HIV podem ser mães; se o teste confirmatório der positivo, o início é imediato da TARV (terapia antirretroviral), escolhendo os medicamentos a fim de evitar as drogas com efeito teratogênico, com a associação de 3 drogas de duas classes diferentes, sendo que a meta é sempre manter a carga viral indetectável.

A partir do surgimento da TARV, o índice de mortes causados pela AIDS diminuiu bastante. Em contrapartida, os portadores começam a apresentar envelhecimento precoce numa taxa um pouco maior do que a população que não vive com HIV – mesmo com carga viral zerada. O vírus causa uma inflamação crônica elevada, aumentado o risco cardiovascular como um todo e favorecendo as chances de eventos cardiovasculares. Já existem pesquisas – o REPRIEVE, por exemplo – que analisam o uso pitavastatina cálcica na prevenção de doenças cardíacas nesses pacientes. E é o maior estudo randomizado até o momento em HIV na prevenção de doenças vasculares.

O HIV não é mais a doença dos anos 80. É hoje a doença que aumenta o risco cardiovascular nos portadores do vírus pelo aumento de uma inflamação crônica decorrente da reação imune. Portadores do HIV em tratamento conseguem baixar a inflamação crônica, entretanto não a níveis de pessoas sem HIV. Hoje o grande desafio no tratamento do HIV é tentar achar uma solução para as doenças relacionadas ao envelhecimento precoce dos portadores.

Em 2012, observou-se que o tratamento para o HIV funciona também como prevenção à transmissão. Pessoas com carga viral indetectável não transmitem o vírus. Portanto, o tratamento começa assim que se faz o diagnóstico, para evitar a transmissão, o desenvolvimento da AIDS, a inflamação crônica e um motivo ainda mais importante: quanto mais se demora a tratar, mais difícil será para que o sistema imune recupere a sua totalidade de linfócitos ao longo do tratamento.

Duas pessoas foram curadas do HIV, todas por conta de um transplante de medula óssea e ao acaso, mas esse é um método impossível de ser empregado em larga escala pelo risco da própria cirugia. Muitos experimentos ao longo dos últimos 30 anos foram feitos para induzir a produção de anticorpos neutralizantes contra o vírus HIV, porém sem efeito comprovado. Um dos muitos experimentos e tentativas de encontrar a cura usou o vírus SIV em macacos, também sem sucesso. O SIV espalha-se mais rapidamente no corpo dos animais do que o sistema imunológico consegue agir contra ele.

Talvez esse seja o grande desafio a produção de uma vacina, a velocidade do vírus. Em menos de 48 horas, ele já estava inserido no DNA. O sistema imunológico leva ao menos 3 dias para uma resposta efetiva. O que precisamos é vencer a sua velocidade de replicação e mutação do sítio de ligação em que os anticorpos neutralizantes podem se ligar. Ainda hoje, o HIV continua a nos desafiar.

Enquanto ao longo das décadas tentamos encontrar a cura para o HIV, a solução ainda viável é impedir novas contaminações. O número de casos novos registrados a cada ano continua muito alto e o investimento para diagnóstico, pesquisa e prevenção não cresce com a mesma velocidade.

O dogma central é que indivíduos com carga viral indetectável não transmitem o HIV. O primeiro passo, portanto, é tratar os portadores do vírus; o segundo é a detecção em grávidas para que o tratamento seja iniciado imediatamente, a fim de evitar a transmissão vertical; e por último pode-se prevenir não apenas com o uso preservativos, mas adotando como estratégia o uso dos PREP e PEP nos grupos de maior vulnerabilidade.

O HIV ainda continuará a ser um vírus difícil de se erradicar, mas já não é mais como a doença que assombrou os anos 80, hoje ele é apenas mais uma doença crônica que habita o nosso DNA.

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Referências

Kucharska I, Ding P, Zadrozny KK, Dick RA, Summers MF, Ganser-Pornillos BK, Pornillos O. Biochemical Reconstitution of HIV-1 Assembly and Maturation. J Virol. 2020 Feb 14;94(5):e01844-19. doi: 10.1128/JVI.01844-19. PMID: 31801870; PMCID: PMC7022372.

Tremouillaux-Guiller J, Moustafa K, Hefferon K, Gaobotse G, Makhzoum A. Plant-made HIV vaccines and potential candidates. Curr Opin Biotechnol. 2020 Feb;61:209-216. doi: 10.1016/j.copbio.2020.01.004. Epub 2020 Feb 12. PMID: 32058899.

Soriano V, Barreiro P. Impact of New Coronavirus Epidemics on HIV-Infected Patients. AIDS Rev. 2020;22(1):57-58. doi: 10.24875/AIDSRev.M20000031. PMID: 32167508.

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Sobre Mim

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