OIF

DAHMER – Resenha da série

Quem não é da área médica, e especificamente da Psiquiatria ou psicologia, tem dificuldade em entender que há transtornos e não doenças psiquiátricas. E esses transtornos podem se misturar a outros. Então, por exemplo, transtorno de personalidade borderline com comorbidade (um acréscimo) em transtorno alimentar. Uma bulimia, por exemplo. Eu tive uma colega que era borderline, bulímica e tinha transtorno de personalidade antissocial. Uma pessoa que não há como a gente colocar em uma gaveta somente, mas em várias. E aquilo que se torna mais “gritante” é o “transtorno” principal. Nela, o mais evidente era a instabilidade nas relações interpessoais, o medo do abandono, a baixa autoestima e a dificuldade no controle dos impulsos. Sendo que juntamente ela flertava com a bulimia e a falta de caráter – transtorno de personalidade antissocial. É capaz de trair quem a ajuda. Na época que eu tinha contato com ela, essa colega fez algo extremamente reprovável e arriscado. Poderia ter sido processada. O baixo controle dos impulsos e, talvez quem sabe, um ambiente familiar pouco honesto em seu passado, construíram uma mente desadaptada.

E qual o motivo de eu estar falando sobre esse assunto? Eu assisti à série DAHMER. E falar sobre o Dahmer é falar sobre uma construção de uma personalidade, é falar sobre epigenética, sobre ambiente familiar, sobre cultura americana. Não temos como apontar o dedo é afirmar “FOI ISSO”. Na série, o tempo inteiro, os pais discutem o que pode ter sido a faísca que o levou a ser um assassino em série. É PRECISO que vocês que estão me lendo, entendam. Não há um motivo, mas vários. Não estamos falando de uma gripe causada por um vírus. E até uma gripe a gente só adquire por diversos fatores, mas sim de um transtorno de personalidade esquizotípico com comorbidade em parafilias (necrofilia e canibalismo).

Muito da série fala sobre os Estados Unidos da época com a emergência do HIV e todos os preconceitos à comunidade gay. Dahmer também é uma construção da sociedade americana. Uma pessoa que se sentia à parte do mundo, por consequência do seu transtorno de personalidade e vivendo em uma época em que o HIV o tornava ainda mais marginal. E o fato de estar fora do que seria o ideal norte americano o isolou ainda mais com seus fantasmas causando mais ansiedade social e inadequação. O ambiente familiar, a cultura, a genética, a epigenética (como o DNA é lido) o lobo frontal, o sistema límbico, o cérebro.Cada uma dessas partes ajudaram o JEFFREY a ser o JEFFREY DAHMER. Dahmer atravessava diversas fronteiras, flertava com diversos transtornos.

Em paralelo à história do personagem principal, a série tem uma parte política muito forte. Dahmer só conseguiu matar por anos porque escolheu suas vítimas em bairros pobres, Imigrantes, negros, gays, latinos. Há uma discussão em torno do “aqui a polícia não chega poque não nos importamos com vocês”. Morre-se mais nos bairros carentes em quase todo mundo. É uma verdade dolorida, a vida humana vale pela sua conta bancária até hoje. Um cara branco, “boa pinta”, insano e esquisito é menos suspeito que uma negra lúcida no filme, sua vizinha. Nada do que ela fala, o cheiro, os barulhos de serra elétrica, o comportamento, impedem o branco boa pinta insano e esquisito de assassinar 17 pessoas.

É uma boa série que gira em torno da construção e do passaporte que tornaram Jeffrey Dahmer em um assassino canibal durante anos. Foi outro dia que vi outro documentário que médicos e cientistas discutiam quais pessoas teriam chances de em determinado ambiente se tornarem assassinos. É claro, é uma “inclinação”. E ainda uma possibilidade. Como essa conta fecha e, de fato, um ser humano vai por esse caminho, ainda é uma investigação. Não sabemos ao certo. Portanto, são contribuições que podem modificar a maneira como o DNA é lido, contribuições que podem “facilitar” o já sentimento de inadequação de uma pessoa e outras mil possobilidades. Tudo gira em torno de como um ser humano vai se adaptar ao ambiente, mas ele já tem que ter “algo a mais”. “Só é DAHMER quem PODE”. Nenhum fator sozinho transforma uma criança em um futuro assassino em série. O Dahmer é um conjunto de diagnósticos, um conjunto de culturas, de sociedade e de valores. É de uma certa maneira assustador ele falar “no geral, eu tive uma infância normal”. Realmente, a verdade é que não sabemos a resposta.

Compartilhe o Post

263490156_1051921118717426_7014901890621647349_n
detail-flower.png

Sobre Mim

Estudante de Medicina, YouTuber, Blogueira, Colunista SanarMed, Academia Médica e Framework

Epigenética

DAHMER – Resenha da série

Quem não é da área médica, e especificamente da Psiquiatria ou psicologia, tem dificuldade em entender que há transtornos e não doenças psiquiátricas. E esses

Read More »